quarta-feira, 8 de julho de 2009

Infinitamente Cachoeira


Infinitamente cachoeira


5 de janeiro de 1987

Voávamos para Manaus.
Era o vôo que marcaria o início de uma nova fase em nossas vidas.
Minha esposa, grávida de 7 meses, havia sido transferida para gerenciar a filial da empresa na Zona Franca.
Eu não sabia exatamente o que fazer da minha vida profissional, mas como já havia conhecido a cidade e suas carências, topei o desafio.

Tudo anunciava um ótimo futuro, cheio de realizações.

Durante o demorado vôo, falávamos sobre os cuidados que deveríamos tomar para que o nascimento de nosso bebê, previsto para março, ocorresse em Joinville, onde marinheiros de primeira viagem encontraríamos o porto seguro próximo dos avós.
Lembro-me que nos empolgamos com o assunto e começamos a fazer divagações sobre o que esperávamos para o futuro daquele “serzinho gerado com tanto amor“ e que com certeza mudaria não só as nossas vidas, mas principalmente a nós mesmos.
Como havíamos decidido não saber o sexo por antecipação, nossos sonhos eram sempre dobrados...

- Se for homem queria que fosse daquele bem rebelde, que não pára um minuto sequer. Vou ensinar a jogar bola, a fazer e soltar pandorga, a andar de bicicleta, a subir em árvore, vou rolar pelo chão com ele... E se for menina queria que fosse bem meiguinha e sapeca.... Fecho os olhos e a vejo de vestidinho rodado, cor-de-rosa, correndo em minha direção com os braços abertos. Vou ser o homem mais feliz do mundo.

- Se for menina vou vestir como uma “dondoquinha” e se for menino com um jeito bem de moleque safadinho.

Sonhamos tanto que nem sentimos o cansaço da longa viagem.

O aviso de preparar para o pouso nos trouxe de volta a realidade.

.........15 de janeiro de 1987

Estávamos há 10 dias em Manaus quando nosso bebê resolveu nascer prematuro, talvez para acabar com nossa ansiedade.
...e assim nasceu Carolina.

........5 de janeiro de 2003

Lá estávamos minha esposa e eu, no meio da mata, em Ibirama, no topo de uma cachoeira, arrepiados de emoção ao ver a coragem de nossa filha Carolina em fazer um rappel de 28 metros de altura.
Enquanto ela descia recordávamos as alegrias que ela já havia nos proporcionado.
Carolina que em poucos dias estaria completando 16 anos, estava cursando o 2º grau, já havia voado de “parapente”, pulado de “ Bung Jump”, feito “rafting”, participava de um “grupo de dança”, cantava no coral da escola, fazia natação, e além de tudo isso, sempre foi uma filha maravilhosa, uma ótima aluna e uma parceira para todas as horas.

Beijamos-nos e ficamos ali abraçados ouvindo os gritos de alegria com os quais nossa filha enchia o ar e o nosso orgulho de sermos seus pais.

Quando ela acabou a descida, beijei emocionado minha esposa, engatei o “mosquetão” auxiliado pelo instrutor e desci a cachoeira com minhas lágrimas de emoção se misturando com a água da cachoeira.
Essas lágrimas não vinham do homem que fazia o rappel, mas do pai que havia ajudado a realizar mais um sonho da filha. As lágrimas eram do marido agradecido a Deus pela esposa maravilhosa e companheira, que apesar de achar loucura botar em risco a vida da filha criada com tanto zelo e sacrifício, estava ali a apoiar (já que o "bom-senso” não a deixava descer), por acreditar que a vida se constrói aos poucos e os medos nada mais são do que portas a serem abertas.
A água castigava o capacete e me envolvia como se eu fosse parte dela.

Parei alguns segundos a descida e fiquei ali “simplesmente cachoeira”.

...Deixei as águas lavarem todos os medos e inseguranças que encharcaram minha vida desde o momento em que Carolina nasceu prematura e que por complicações no parto sofreu uma paralisia cerebral.

Deixei lavar o desespero de quando ouvi o primeiro diagnóstico de que pelas seqüelas ela não conseguiria ter um desenvolvimento normal, não andaria e seria seriamente comprometida em todas as outras funções.

...Deixei lavar os momentos que com o rosto entre os joelhos e as mãos sobre a nuca me perguntava:
Porque com a minha filha meu Deus?
Será que estou sendo castigado pela minha adolescência conturbada e os sofrimentos que dei aos meus pais?
O que fazer meu Deus?

...Deixei lavar o rancor que ainda guardava daquele médico, que por ser humano, tinha o direito de errar, mas não com a minha filha.

...Deixei lavar os primeiros anos em que erradamente lutávamos para que nossa filha fosse igual a qualquer outra criança, quando só tínhamos olhos para suas limitações e cegamente não víamos suas infinitas qualidades.

...Deixei lavar o sentimento de culpa por ter decidido ir morar em Manaus.

Fiquei ali naquela maravilhosa simbiose com a natureza, tentando sugar dela todas as lições que estavam ali para serem aprendidas.
Percebi que tudo tem sentido, que tudo é construtivo, até mesmo o que vemos como limitação.

Percebi ali o quanto fomos privilegiados em sermos pais daquela menina. Sem ela jamais estaria naquele divino momento em comunhão com a natureza e sentindo o quanto Carolina havia encharcado nossa vida de amor.

Percebi que ser pai é naturalmente a mais difícil e prazerosa das missões que assumimos pela vida, independente do filho que se tem.

Percebi que fomos iluminados em determinar limites ao educar nossa filha, mesmo com as críticas das pessoas que nos chamavam de “duros demais”.

Percebi que todas as nossas expectativas sempre foram maiores, mas as emoções a cada realização foram também proporcionalmente maiores.

Percebi que não importa como se anda, o importante é que se sonhe para onde ir, que o sonho desencadeie o desejo, que o desejo desencadeie a luta, porque a luta por si só já é uma realização do andar.

Percebi que o amor, além de tudo, também é a melhor fisioterapia.

Não sei se todos esses sentimentos poderiam ser registrados no tempo que se passou enquanto eu “estava cachoeira”, mas as sensações ficaram comigo de tal maneira, que ao completar a descida e encontrar Carolina lá embaixo, nos abraçamos emocionados e ficamos ali, um só ser, “infinitamente cachoeira”.

Mário Cezar da Silveira